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Como Prevenir Úlceras por Pressão

Sara Oliveira

Um em cada dez pacientes acamados na Europa desenvolve uma úlcera por pressão. Metade dos pacientes que as desenvolvem morre em apenas quatro meses. E, no entanto, entre 80% a 95% destas feridas poderiam ter sido evitadas. Prevenir custa cerca de sete vezes menos do que tratar.

Estes números não descrevem uma consequência inevitável da velhice, descrevem um problema de informação. No quarto episódio do podcast Cuidar é Canja, António Veríssimo recebe Sara Oliveira, enfermeira há 18 anos e especialista em superfícies de apoio para a prevenção de feridas, para uma conversa que desmistifica tudo o que pensamos saber sobre escaras: o que as causa, como se detetam, que colchões realmente funcionam, que produtos ajudam, e que práticas caseiras, ainda hoje comuns, fazem mais mal do que bem.

Se cuida de alguém acamado ou com mobilidade reduzida, esta conversa pode poupar sofrimento real. Aprenda, de forma simples, como prevenir úlceras por pressão em pessoas acamadas ou com mobilidade reduzida. Com a ajuda da Sara, desmistificamos ideias erradas e partilhamos sinais de alerta, técnicas corretas e soluções práticas. O conhecimento certo evita sofrimento desnecessário e pode, literalmente, salvar vidas.

Escaras ou úlceras por pressão? O nome correto importa

O termo “escaras” é o que a maioria das pessoas conhece, mas o nome técnico, úlceras por pressão, ajuda a perceber exatamente o que está em causa. São lesões provocadas pela pressão dos ossos contra a pele, sobretudo nas zonas onde existem proeminências ósseas mais pronunciadas: cotovelos, cóccix, tornozelos e calcanhares.

Mas a pressão não é o único vilão. Sara identifica três causas principais:

  • A pressão propriamente dita: o osso pressiona a pele contra a superfície de apoio (colchão, almofada, cadeira), esmagando os vasos sanguíneos mais finos e provocando morte celular. Quando a ferida se torna visível à superfície, o dano interior já aconteceu há dias.
  • O cisalhamento: o movimento de escorregar pela cama ou pela cadeira, que estica os tecidos e pode provocar lesões internas que não se veem imediatamente.
  • O microclima: a humidade da pele causada pela transpiração, pela urina (no caso de fraldas) ou por capas de colchão que não permitem a evaporação. Uma pele húmida é uma pele mais vulnerável.

Sara acrescenta ainda um fator que muitas pessoas desconhecem: os dispositivos médicos. O tubo de uma algália mal posicionado, o contacto prolongado de uma máscara, qualquer objeto que faça pressão contínua sobre a pele pode originar uma úlcera. O exemplo mais visível foram as marcas que os profissionais de saúde apresentavam no rosto durante a pandemia de Covid-19, e que tecnicamente, eram úlceras por pressão.

Como detetar os primeiros sinais de alerta

Sara é clara: a pele fala connosco. E os cuidadores profissionais ou informais precisam de aprender a ouvi-la.

Os primeiros sinais são marcas na pele semelhantes a rugas, provocadas pela capa do colchão ou pelos lençóis, visíveis quando se presta a higiene. Estas marcas indicam que a pele está mais frágil e que o posicionamento pode não estar a ser suficiente.

O sinal mais importante é o eritema não branqueável, uma zona da pele marcadamente vermelha, como uma rosácea, que não desaparece quando se faz pressão com o dedo. Sara ensina um teste simples que qualquer cuidador pode fazer: pressionar a zona vermelha com o dedo indicador. Se a pele ficar branca momentaneamente, há circulação, não há problema. Se a pele não ficar branca, estamos perante a primeira categoria de uma úlcera por pressão. Já é uma lesão, mas ainda é reversível se se agir de imediato.

O que fazer quando surgem os primeiros sinais

Perante um eritema não branqueável, Sara recomenda duas medidas imediatas:

Primeiro: reposicionar. Mudar a posição da pessoa e evitar colocá-la sobre a zona afetada. Se a pressão continuar, a morte celular avança e a ferida evolui.

Segundo: aplicar ácidos gordos hiperoxigenados. O nome é intimidante, mas os produtos são simples e acessíveis: os dois mais conhecidos no mercado português são o Corpitol e o Linovera. São óleos que, aplicados em pequena quantidade sobre a zona (sem massajar, apenas espalhar), criam uma barreira gordurosa que hidrata a pele e a torna mais elástica e resistente à rutura. Podem e devem ser usados preventivamente nas zonas de proeminência óssea, mesmo antes de qualquer sinal de lesão.

Posicionamentos: a regra das duas horas não é universal

Existe uma crença muito difundida de que os pacientes acamados devem ser reposicionados de duas em duas horas. Sara desmonta este mito: não existe um intervalo universal. O posicionamento pode ter de ser feito de hora a hora, de meia em meia hora, ou de três em três horas. Depende da pessoa, dos seus fatores de risco e da superfície de apoio que utiliza.

A pele do paciente é o melhor indicador: se, ao prestar cuidados de higiene, o cuidador vê marcas dos lençóis ou da capa do colchão, o intervalo de posicionamento provavelmente não está a ser suficiente.

Outra mudança importante: a posição lateral a 90 graus, virar a pessoa completamente de lado, já não é recomendada. O que está indicado é um posicionamento a 30 graus, que reduz significativamente a pressão sobre as proeminências ósseas.

Para facilitar este posicionamento, existem hoje almofadas posicionadoras com formato em S que acompanham o corpo inteiro, da cabeça aos tornozelos, e mantêm automaticamente o ângulo de 30 graus. São dispositivos médicos acessíveis que substituem com vantagem o arranjo de cinco ou seis almofadas de casa, que frequentemente escorregam antes de o cuidador sair do quarto.

Como escolher o colchão certo: o guia definitivo

A escolha do colchão é uma das decisões mais importantes, e mais mal informadas, na prevenção de úlceras por pressão. Sara explica que existem essencialmente três tipos no mercado:

Colchões de viscoelástico (estáticos)

São os mais indicados para a maioria das situações: pessoas com alguma capacidade de mobilização e com um cuidador que faz posicionamentos regulares. O viscoelástico redistribui a pressão: quando o corpo exerce força sobre o colchão, a espuma cede e distribui essa pressão por uma área maior, aliviando os pontos críticos sobre as proeminências ósseas.

Mas nem todo o viscoelástico é igual. Sara alerta para um detalhe técnico que faz toda a diferença: a densidade. Só a partir de cerca de 50 kg/m³ é que a espuma tem capacidade real de redistribuição da pressão. Quanto mais pesada a pessoa, maior deve ser a densidade. Esta informação deve constar na ficha técnica do colchão.

Outro elemento essencial é a base do colchão: uma camada de espuma HR (alta resiliência) que dá suporte ao viscoelástico, impede que a pessoa “afunde” no colchão, e prolonga a durabilidade do produto. Sem esta base, o viscoelástico deforma-se rapidamente e perde eficácia.

Colchões dinâmicos (ativos)

Indicados para doentes totalmente dependentes, sem qualquer capacidade de mobilização. São colchões com motor, ligados à eletricidade, que alternam pressão através de tubos internos (não alvéolos). São verdadeiros colchões: colocam-se diretamente sobre o estrado, e não sobre outro colchão.

Colchões híbridos

Muito específicos, indicados para situações de altíssimo risco: cuidados intensivos, pós-enxertos de pele, casos extremos. São menos comuns no contexto domiciliário.

O grande mito: o sobrecolchão de alvéolos

Sara é frontal sobre um dos equívocos mais persistentes nos cuidados domiciliários: os sobrecolchões de alvéolos (pressão alternada) colocados sobre um bom colchão de viscoelástico não são indicados e podem ser contraproducentes. As novas orientações mundiais de prevenção de úlceras por pressão, publicadas em setembro, não incluem os sobrecolchões como recomendação.

O problema é mecânico: quando um alvéolo enche, a pressão exercida nesse ponto aumenta. O mesmo princípio que torna as almofadas de tipo “donut” desaconselhadas. Colocar um sobrecolchão destes, sobre um colchão de viscoelástico de qualidade, anula o efeito de redistribuição da pressão pelo qual se pagou.

A única exceção: se o colchão existente não é de viscoelástico e a família não tem capacidade económica para investir num colchão adequado, um sobrecolchão de alvéolos é melhor do que nada.

A capa do colchão: o detalhe que ninguém verifica

Sara alerta para algo que a maioria das pessoas ignora: de nada serve ter um excelente colchão se a capa não tiver as propriedades certas. Uma capa adequada deve ser:

  • Bioelástica: estica e acompanha os movimentos do colchão, sem criar rugas que possam marcar a pele.
  • Impermeável: impede que fluidos (urina, sangue, desinfetantes) penetrem e danifiquem o interior do colchão.
  • Evapotranspirável nos dois sentidos: não deixa passar líquidos de fora para dentro, mas permite a passagem de vapor de água em ambas as direções. Isto é essencial para gerir o microclima (evitar acumulação de suor) e para que o viscoelástico respire e dure mais tempo.

Mitos perigosos: o que não fazer

Álcool, colónias e pó de talco na pele

É uma prática ainda comum: aplicar álcool ou pó de talco na pele para “secar” ou “fortalecer”. Sara explica que o efeito é exatamente o oposto do desejado. Estes produtos desidratam a pele, tornando-a mais seca, menos elástica e mais propensa a romper. A analogia é simples: tal como no verão a pele seca dos calcanhares desenvolve fissuras, uma pele desidratada por álcool abre mais facilmente. O correto é hidratar com creme hidratante no corpo, e com ácidos gordos hiperoxigenados nas zonas de risco.

Almofadas tipo “donut”

As almofadas redondas com buraco no centro tipo “donut”, não são indicadas para prevenção de úlceras por pressão. São úteis para o pós-operatório de cirurgias a hemorróidas, mas na prevenção de escaras o efeito é contraproducente: a zona sem contacto sobrecarrega a zona envolvente, aumentando a pressão exatamente onde não se quer. O indicado são almofadas de viscoelástico completas, de formato quadrado, que proporcionam redistribuição uniforme da pressão, e custam praticamente o mesmo.

Nutrição e hidratação: os fatores intrínsecos

Sara recorda que as úlceras por pressão têm 126 fatores de risco identificados, e nem todos são controláveis pelo cuidador. Mas dois fatores intrínsecos merecem atenção especial:

Hidratação: se o corpo não está hidratado por dentro, a pele não estará hidratada por fora. Em pacientes com dificuldade em engolir (frequente após um AVC), existem no mercado espessantes que transformam a água numa consistência gelatinosa, mais segura de ingerir.

Nutrição: o músculo é constituído por proteína, e uma boa camada muscular funciona como proteção entre o osso e a pele. Quando o aporte nutricional é insuficiente, suplementos proteicos recomendados por um profissional de saúde ou nutricionista, podem ajudar significativamente, tanto na prevenção como no tratamento.

Principais conclusões deste episódio

  1. As úlceras por pressão não são uma consequência inevitável: 80 a 95% são evitáveis com os cuidados certos.
  2. A pele fala: marcas de lençóis e zonas vermelhas que não branqueiam ao pressionar com o dedo são sinais de alerta que nenhum cuidador deve ignorar.
  3. Os ácidos gordos hiperoxigenados (Corpitol, Linovera) são aliados essenciais, baratos e subutilizados na prevenção. Devem ser aplicados nas proeminências ósseas.
  4. O posicionamento a 30 graus é o indicado atualmente, e não a 90 graus. Almofadas posicionadoras em S facilitam este processo.
  5. Nem todos os doentes precisam de ser reposicionados de duas em duas horas: o intervalo deve ser individualizado e avaliado com apoio profissional.
  6. Um bom colchão de viscoelástico (densidade ≥ 50 kg/m³) com espuma HR na base e capa bioelástica/evapotranspirável é a recomendação para a maioria das situações. Sobrecolchões de alvéolos sobre viscoelástico estão desaconselhados.
  7. Álcool, colónias, pó de talco e almofadas “donut” não previnem escaras, pelo contrário, aumentam o risco.
  8. Procure ajuda profissional. Os cuidadores informais não são, nem têm de ser, profissionais de saúde. Peça orientação ao enfermeiro, ao médico ou ao especialista na ortopedia.

Sobre o podcast Cuidar é Canja

O Cuidar é Canja é o podcast da Academia de Cuidadores, o projeto educativo da Mais Que Cuidar. Apresentado por António Veríssimo, traz a este microfone enfermeiros, médicos, psicólogos, geriatras, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e outros profissionais de saúde para conversas que descomplicam o cuidar.

Seja cuidador informal ou profissional, este podcast é o seu espaço para aprender, crescer e sentir que não está sozinho nesta jornada.