No episódio inaugural do podcast Cuidar é Canja, António Veríssimo recebe Eduardo Pinheiro, enfermeiro há mais de 20 anos e CEO da Novo Cuidar, para uma conversa franca sobre o estado dos cuidados domiciliários em Portugal.
Eduardo partilha o percurso que o levou de enfermeiro no terreno a liderar uma empresa de apoio domiciliário, e juntos exploram uma questão central: o que é preciso mudar para que cuidar de pessoas idosas e dependentes deixe de ser um ato solitário e exaustivo?
A conversa toca em temas que dizem respeito a milhares de famílias portuguesas: o perfil do cuidador informal, a chamada “geração sanduíche”, o momento em que as famílias pedem ajuda (quase sempre tarde demais), a necessidade urgente de profissionalizar quem cuida, e o papel que o Estado terá, inevitavelmente, de assumir no financiamento dos cuidados domiciliários.
De enfermeiro a CEO: como nasceu a Novo Cuidar
Eduardo Pinheiro começou a sua carreira na pediatria, mas a vida levou-o, como acontece com tantos profissionais de saúde, a trabalhar em várias frentes ao mesmo tempo. A experiência que o marcou profundamente foi ver o cuidado que um enfermeiro prestava à sua avó no domicílio, o à-vontade, a proximidade, a humanidade daquele gesto clínico que era simultaneamente afetivo.
A partir daí, o domicílio tornou-se o seu território. Juntou-se com colegas enfermeiros e criou o que começou como uma pequena empresa familiar de cuidados ao domicílio. Com o aumento da procura, e com o apoio da Mais Que Cuidar, parceira desde o início, a Novo Cuidar profissionalizou-se e cresceu.
Aos serviços de enfermagem juntaram-se consultas médicas, fisioterapia, terapia da fala e estimulação cognitiva. Mas a grande viragem aconteceu quando a equipa percebeu algo fundamental: depois de o profissional sair, a pessoa ficava sozinha. Ou ficava com um familiar que, apesar de toda a boa vontade, não tinha conhecimento nem condições para assegurar os cuidados necessários.
Foi essa lacuna que levou a Novo Cuidar a incorporar ajudantes familiares, profissionais que asseguram uma presença contínua no domicílio. Hoje, 90% da atividade da empresa gira em torno deste acompanhamento prolongado.
O perfil do cuidador do século XXI
De governantas a cuidadores profissionais
Eduardo traça uma linha histórica reveladora. Há décadas, muitos portugueses emigravam, sobretudo para França, e acabavam, com o passar dos anos, a tornar-se cuidadores informais das famílias que os acolhiam. Cá dentro, era a mulher da casa que ficava com essa responsabilidade, adaptando-se à medida que o familiar envelhecia.
No século XXI, essa estrutura colapsou. Hoje, em praticamente todos os casais, ambos trabalham. Os filhos entram rapidamente no mercado de trabalho. Mas os idosos continuam a existir, e a precisar de cuidados.
O contributo dos imigrantes brasileiros
Nos últimos anos, Portugal recorreu significativamente a imigrantes brasileiros para preencher esta lacuna. Muitos deles trazem formação na área da saúde, a vantagem da língua partilhada e uma capacidade notável de adaptação. Eduardo sublinha que esta comunidade está, cada vez mais, a reivindicar a profissionalização daquilo que faz, e com razão.
A profissionalização como caminho inevitável
A visão de Eduardo é clara: o cuidador do século XXI terá de ser, obrigatoriamente, um profissional. Alguém com formação certificada, conhecimentos comprovados, experiência validada e estágios. Não por uma questão burocrática, mas porque as responsabilidades que assume, posicionamentos, cuidados com a pele, utilização de produtos de apoio, transferências, entre outras, exigem competência técnica real.
As famílias estão a tornar-se mais exigentes. E tal como ninguém iria pedir a uma pessoa sem formação que administrasse uma injeção, também não deveria ser aceitável que cuidados pessoais e continuados, sejam prestados sem qualquer preparação.
A “geração sanduíche” e o momento da exaustão
Quando é que as famílias pedem ajuda?
Uma das revelações mais impactantes deste episódio prende-se com o momento em que as famílias procuram apoio externo. Eduardo não hesita na resposta: chegam já em fase de exaustão.
Há várias razões para este atraso. O custo dos serviços, a resistência do próprio idoso a receber um estranho em casa, a negação da família, a tentativa de gerir tudo sozinho. O resultado é que, quando chegam a uma empresa como a Novo Cuidar, os familiares já acumulam desgaste físico, emocional e laboral. São raríssimos os casos preventivos.
A angústia de cuidar à distância
Eduardo descreve um cenário que se tornou frequente: filhos que trabalham no estrangeiro, e que a única forma que encontram de vigiar uma mãe com demência, é através de câmaras de vigilância instaladas em casa. Uma angústia ao minuto, porque a demência pode estar controlada agora e descontrolada cinco minutos depois, sem que quem está do outro lado, possa fazer alguma coisa, além de chamar ajuda.
As mulheres continuam a cuidar
O perfil do cuidador informal continua a ser predominantemente feminino. Eduardo, estima que 80 a 85% dos cuidados, sejam assegurados por mulheres, tanto no contexto informal como profissional. Nos homens, a entrada no cuidado profissional está quase sempre associada a uma experiência prévia na área da saúde; sem essa ligação, existe uma retração que Eduardo observa consistentemente.
As patologias mais comuns nos cuidados domiciliários
Na experiência da Novo Cuidar, as situações mais frequentes que levam as famílias a procurar apoio profissional dividem-se em dois grandes grupos:
Doenças neurodegenerativas (progressivas):
- Doença de Alzheimer, a mais prevalente
- Doença de Parkinson
- Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA)
Nestes casos, a deterioração é gradual e muitas vezes a família só procura ajuda quando a pessoa já está num grau de dependência elevado, acamada ou semi-acamada.
Situações agudas (repentinas):
- Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC): a pessoa estava bem, teve um episódio e ficou dependente de um dia para o outro.
- Pós-operatórios ortopédicos: fraturas por queda, sobretudo do fémur, que transformam uma pessoa independente, numa pessoa que precisa de apoio imediato.
A imprevisibilidade destas situações agudas é particularmente desafiante para as famílias, que se veem a ter de reorganizar toda a sua vida, de uma hora para a outra.
O futuro dos cuidados em Portugal: o papel do Estado
Um milhão de cuidadores informais, 14 mil com estatuto
Os números falam por si: estima-se que existam cerca de um milhão de cuidadores informais em Portugal, mas apenas 14 mil solicitaram o Estatuto de Cuidador Informal. E mesmo quem o obteve encontra apoios limitados face à dimensão das necessidades reais.
Os cuidados domiciliários privados não são um luxo
Eduardo é frontal: ter um cuidador em casa não é um luxo, é uma necessidade. Mas é uma necessidade cara, e a realidade económica da maioria das famílias portuguesas não permite sustentá-la a longo prazo sem apoio. A Novo Cuidar vê isso todos os anos, quando atualiza os valores: muitas famílias estão no limite financeiro.
O Estado vai ter de intervir
A convicção de Eduardo é que, mais cedo ou mais tarde, o Estado terá de cofinanciar os cuidados domiciliários privados, tal como já comparticipa outros serviços de saúde. As empresas privadas de apoio domiciliário passariam a fazer parte da resposta social, complementando o trabalho das IPSS e da Santa Casa da Misericórdia.
Eduardo sublinha que o modelo atual das respostas sociais, visitas pontuais para higiene e refeições, é importante, mas não é cuidar na sua plenitude. Cuidar de verdade, implica presença continuada, acompanhamento, e a segurança de que alguém está lá, quando a pessoa precisa, mas também quando não precisa.
“Cuidar é canja?” — A resposta de Eduardo Pinheiro
No segmento final do episódio, perante a pergunta que dá nome ao podcast, Eduardo não hesita: sim, cuidar é canja. Mas explica porquê, com uma analogia que vale a pena guardar:
A canja não é só “comida de doente”. A canja traz sabor, carinho, conforto e calor. Se a pessoa cuidar com gosto, com prazer, com amor, com o mesmo objetivo que a canja tem, que é confortar, alimentar e hidratar, então cuidar é, de facto, canja.
É essa filosofia que guia o trabalho de Eduardo e da Novo Cuidar: tratar cada pessoa como gostariam que tratassem os seus próprios pais.
Principais conclusões deste episódio
- O cuidador do futuro será um profissional certificado, com formação, estágios e competências comprovadas. A profissionalização não é um luxo; é uma exigência de segurança e qualidade.
- As famílias pedem ajuda demasiado tarde, quase sempre, em fase de exaustão. Procurar apoio preventivo pode poupar anos de desgaste físico e emocional.
- Os imigrantes brasileiros estão a desempenhar um papel fundamental nos cuidados domiciliários em Portugal, e a reivindicar, com razão, a profissionalização da atividade.
- Cuidar não se resume a uma técnica , é presença, atenção, companhia. Os profissionais de saúde fazem a parte técnica, mas o acompanhamento continuado, é o que faz a diferença no dia a dia.
- O Estado terá de cofinanciar os cuidados domiciliários privados, o modelo atual não é sustentável para as famílias nem para o país.
- A “geração sanduíche” está sob pressão inédita, entre filhos dependentes e pais a envelhecer, com uma vida profissional a tempo inteiro no meio.
Sobre o convidado
Eduardo Pinheiro é enfermeiro há mais de 20 anos e CEO da Novo Cuidar, uma empresa de cuidados domiciliários. Lidera equipas multidisciplinares de enfermeiros, médicos, fisioterapeutas e ajudantes familiares, e é responsável pelo desenho de planos de cuidados personalizados para utentes e famílias, em todo o país.







