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Incontinência no Adulto: Cuidar com Confiança e sem Tabus

Cláudia Guimarães

Em Portugal, estima-se que 600 mil pessoas sofram de incontinência urinária, e apenas 10% procuram ajuda profissional. A incontinência continua a ser um tema tabu, normalizado como consequência inevitável do envelhecimento, quando na realidade é uma doença crónica que merece ser tratada e gerida com dignidade.

No quinto episódio do podcast Cuidar é Canja, António Veríssimo recebe Cláudia Guimarães, responsável técnica da LH Medical, empresa especializada exclusivamente em produtos para incontinência e representante em Portugal da AMD, fabricante francês de referência. Juntos, abordam sem rodeios as questões que afligem milhares de cuidadores todos os dias: como escolher a fralda certa, como evitar as fugas noturnas, o que significam realmente as “gotas” nas embalagens, por que razão o pó de talco faz mais mal do que bem, e por que motivo o produto mais barato raramente é o mais económico.

A incontinência não é uma consequência normal do envelhecimento

Uma das mensagens mais importantes deste episódio é esta: a incontinência urinária é uma doença crónica, não uma inevitabilidade da idade. Existem alterações fisiológicas associadas ao envelhecimento que predispõem à doença, mas isso não significa que deva ser aceite como “normal” ou que não haja nada a fazer.

Cláudia sublinha que o primeiro passo, antes de escolher qualquer produto, deveria ser sempre consultar um profissional de saúde. Existem tipos diferentes de incontinência, cada um com causas e abordagens distintas:

  • Incontinência de esforço: a mais comum em mulheres, frequentemente associada ao pós-parto ou à menopausa. Um riso, um espirro, uma caminhada mais rápida provocam pequenas perdas. É também a que mais rapidamente responde a intervenção, e a mais encoberta, porque muitas mulheres a normalizam.
  • Incontinência de urgência: muito associada ao envelhecimento. A bexiga sinaliza que está cheia e a pessoa sente vontade imediata de urinar, sem tempo suficiente para chegar à casa de banho.
  • Incontinência funcional: presente em pessoas com mobilidade reduzida (cadeira de rodas, acamados), onde a incontinência não é o problema primário, mas uma consequência da limitação física.
  • Incontinência de extravasamento: a pessoa urina poucas vezes ao dia, mas em volumes muito grandes, porque a bexiga não esvazia adequadamente. É extremamente comum em contexto institucional e exige produtos com capacidade de absorção elevada.

A incidência é significativamente maior nas mulheres: a partir dos 65 anos, 3 em cada 10 mulheres desenvolvem incontinência, contra 1 em cada 10 homens.

Como escolher a fralda certa: os dois critérios que realmente importam

Quando um cuidador vai comprar produtos de incontinência pela primeira vez, depara-se com uma floresta de marcas, códigos de gotas, denominações (“super”, “maxi”, “noite”) e tamanhos. Cláudia simplifica a decisão com dois critérios fundamentais:

1. Capacidade de absorção

Determina quantas horas o produto dura. É medida em mililitros através de testes laboratoriais e traduz a quantidade de superabsorvente (poliacrilato de sódio) presente no interior da fralda. Mais superabsorvente significa mais capacidade, mas também um custo unitário mais elevado, o que, como veremos, não significa necessariamente mais caro no final do mês.

2. Velocidade de absorção

Para Cláudia, este é o critério mais importante, até mais do que a capacidade. A velocidade determina quanto tempo a pele fica em contacto com a urina. Um produto rápido a absorver mantém a pele seca, reduzindo drasticamente o risco de maceração, irritações cutâneas e infeções urinárias. O cuidador pode verificar este critério na prática: ao retirar a fralda, se a pele estiver seca apesar do produto estar saturado, é sinal de boa velocidade de absorção.

O que os códigos de gotas realmente significam

Uma alerta importante: os códigos de gotas não são padronizados entre marcas. Cada fabricante define o seu próprio sistema. Uma fralda com 3 gotas de uma marca pode absorver mais do que uma de 10 gotas de outra. As gotas servem apenas para comparar produtos dentro da mesma marca, nunca entre marcas diferentes.

Quanto às denominações comerciais (“super”, “maxi”, “extra”), Cláudia aconselha a optar preferencialmente por produtos com a denominação “maxi”, que na maioria dos fabricantes corresponde à capacidade máxima de absorção da gama.

O problema das fugas noturnas e como resolvê-lo

A fuga noturna é, provavelmente, a queixa mais frequente dos cuidadores. Mudar lençóis, roupa e fralda de madrugada é desgastante para quem cuida e perturbador para quem é cuidado.

Cláudia identifica três causas principais:

  • Produto com capacidade insuficiente. Para um período noturno de 7 a 9 horas, é necessária uma fralda com capacidade de absorção elevada. Estes produtos raramente se encontram nas grandes superfícies. Estão disponíveis em farmácias, ortopedias e casas especializadas.
  • Tamanho incorreto. Muitas pessoas escolhem o tamanho da fralda com base no contorno abdominal, quando o correto é medir o contorno da anca. Nas pessoas idosas, o abdómen é frequentemente maior do que a anca, o que leva a escolher um produto demasiado grande. O resultado: mau encaixe entre as pernas e fuga garantida.
  • Colocação incorreta. A técnica de colocação faz toda a diferença. Cláudia recomenda lateralizar o paciente, encontrar o centro do produto (dobrando-o ao meio), alinhar esse centro com a coluna da pessoa e focar-se no encaixe na zona das virilhas, que é onde se previnem as fugas. As barreiras laterais (hidrofóbicas) devem ficar bem encaixadas nas virilhas para impedir a passagem de urina.

No caso dos homens, a fralda deve ser colocada dois a três dedos acima do umbigo, porque a projeção da urina é mais para cima. Nas mulheres, sobretudo deitadas, a urina tende a escorrer para trás, o que exige atenção na colocação.

Fralda convencional vs. fralda cueca: quando usar cada uma

A fralda cueca (pull-up) é, no essencial, um penso com cintura incorporada. Destina-se a pessoas com mobilidade e perdas moderadas, alguém que sai de casa, vai a uma consulta, tem uma vida ativa mas já começa a ter perdas. É discreta e funciona como roupa interior absorvente. Não é indicada para pessoas acamadas nem para incontinência severa.

A fralda convencional (com adesivos laterais) é o produto indicado para incontinência moderada a severa e para pessoas com mobilidade reduzida ou acamadas. Tem maior capacidade de absorção e permite uma colocação mais controlada por parte do cuidador.

Quatro mitos perigosos que os cuidadores devem abandonar

Mito 1: “Pôr duas fraldas ou um penso dentro da fralda aumenta a absorção”

Não aumenta. Todos os produtos de incontinência têm uma camada impermeável exterior. Ao sobrepor dois produtos impermeáveis, a urina fica retida no primeiro e não passa para o segundo, não há soma de capacidades. Para além do desconforto, é um desperdício de dinheiro. A solução correta é escolher um único produto com a capacidade de absorção adequada.

Mito 2: “Dar menos água à noite para reduzir a urina”

É uma prática perigosa. Uma urina mais concentrada é mais agressiva para a pele e para a bexiga, e paradoxalmente, pode levar a micções mais frequentes, porque a bexiga tenta expulsar a urina concentrada. Muitos idosos incontinentes são polimedicados, frequentemente com diuréticos, o que torna a restrição hídrica ainda mais contraproducente. A hidratação deve ser mantida durante todo o dia, inverno e verão.

Mito 3: “Uma fralda de alta absorção pode durar o dia inteiro”

Mesmo com uma fralda de grande capacidade, o preconizado são 3 a 4 mudas em 24 horas. Cada muda é um momento essencial para vigiar o estado da pele, aplicar cremes hidratantes ou barreira se necessário, e garantir a higienização adequada. A fralda de alta absorção permite intervalos mais longos e confortáveis mas não elimina a necessidade de mudas regulares.

Mito 4: “O pó de talco protege a pele”

Em contacto com a urina, o pó de talco transforma-se numa pasta abrasiva que agride a pele em vez de a proteger. Este hábito remonta à época das fraldas de pano, que não tinham capacidade de manter a pele seca. Com os produtos atuais, desde que tenham boa velocidade de absorção, a pele deve ser mantida limpa, hidratada e livre de qualquer produto que bloqueie a respiração. Higienização com água e sabão é o indicado.

Retirar a fralda: dois gestos que previnem lesões

Cláudia alerta para dois erros comuns na remoção da fralda que podem causar lesões cutâneas:

Os adesivos devem ser dobrados para dentro antes de retirar o produto. Em peles fragilizadas, os adesivos colam-se e, ao serem puxados, provocam lesões. Nas instituições, onde as mudas são feitas com mais rapidez, este é um problema frequente.

A limpeza deve ser feita sempre da frente para trás, nunca ao contrário. Quando a fralda contém fezes, retirá-la no sentido contrário aumenta significativamente o risco de infeções urinárias. É um gesto simples, mas que muitas vezes é esquecido.

O barato sai caro: a matemática da incontinência

Uma das reflexões mais úteis deste episódio é a demonstração de que um produto mais barato por unidade raramente é o mais económico no final do mês.

O raciocínio é direto: uma fralda com menos superabsorvente custa menos, mas dura menos tempo. Se uma fralda económica exige 7 a 8 mudas por dia, e uma fralda com boa capacidade de absorção permite 3 a 4 mudas, o custo diário pode ser equivalente ou até inferior com o produto mais caro. E isto sem contabilizar os custos indiretos: mais lavandaria, mais tempo do cuidador, maior risco de problemas de pele que depois exigem tratamento.

Cláudia recorda que os produtos disponibilizados nos centros de saúde (através de concursos públicos) são tipicamente de menor capacidade de absorção, o que obriga a mais mudas para o mesmo período. É fundamental que os cuidadores façam esta conta antes de assumirem que o mais barato é a melhor opção.

Principais conclusões deste episódio

  1. A incontinência é uma doença crónica, não uma consequência normal do envelhecimento. Afeta 600 mil portugueses e apenas 10% procuram ajuda profissional.
  2. Os dois critérios essenciais na escolha de uma fralda são a capacidade de absorção (quantas horas dura) e a velocidade de absorção (quão rápido a pele fica seca). A velocidade é, para efeitos de saúde da pele, o mais importante.
  3. Os códigos de gotas não são comparáveis entre marcas. Três gotas de uma marca podem absorver mais do que dez de outra.
  4. Para resolver fugas noturnas: produto com alta capacidade de absorção + tamanho correto (medir a anca, não o abdómen) + colocação cuidadosa com encaixe nas virilhas.
  5. Sobrepor fraldas ou pensos não aumenta a absorção.
  6. Não reduza a água ao final do dia. Uma urina concentrada é mais agressiva para a pele e para a bexiga.
  7. O pó de talco não protege, em contacto com a urina, torna-se uma pasta abrasiva.
  8. O produto mais barato raramente é o mais económico. Faça as contas do custo diário, não do custo unitário.
  9. Aconselhe-se em farmácias, ortopedias ou junto de profissionais de saúde, não apenas nas grandes superfícies, que tipicamente não têm os produtos de maior capacidade.

Sobre o podcast Cuidar é Canja

O Cuidar é Canja é o podcast da Academia de Cuidadores, o projeto educativo da Mais Que Cuidar. Apresentado por António Veríssimo, traz a este microfone enfermeiros, médicos, psicólogos, geriatras, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e outros profissionais de saúde para conversas que descomplicam o cuidar.

Seja cuidador informal ou profissional, este podcast é o seu espaço para aprender, crescer e sentir que não está sozinho nesta jornada.