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Reminiscência: Como Cuidar com o Poder das Memórias

Maria do Céu Monteiro

Em Portugal, estima-se que mais de 200 mil pessoas vivam com um diagnóstico de demência, e cerca de 90% são cuidadas em casa, por familiares ou por cuidadores informais. À medida que a população envelhece, encontrar novas formas de cuidar e de comunicar com estas pessoas torna-se cada vez mais urgente.

No segundo episódio do podcast Cuidar é Canja, António Veríssimo recebe a enfermeira Maria do Céu Monteiro, enfermeira há mais de 27 anos, especialista em Saúde Mental e Psiquiatria, e com formação em Sociologia, para falar de uma ferramenta terapêutica que poucos conhecem mas que pode transformar a forma como cuidamos de pessoas com demência: a terapia da reminiscência.

A conversa explora o que é esta técnica, como funciona na prática, que resultados produz, e como famílias e cuidadores podem beneficiar dela, mesmo em casa.

O que é a terapia da reminiscência?

A reminiscência é, no seu essencial, uma técnica terapêutica que permite aceder às memórias de uma pessoa, memórias que lhe dão identidade, que contam quem ela foi e quem ainda é. O conceito foi introduzido em 1963, mas só agora começa a ganhar a relevância que merece no cuidado a pessoas com demência.

Quando alguém recebe um diagnóstico de demência, há uma tendência para assumir que a pessoa “deixou de ser quem era”. Como se a doença apagasse o percurso de uma vida inteira. Maria do Céu desafia frontalmente esta ideia: a pessoa está lá, e as memórias são a chave para a alcançar.

Através de sessões estruturadas, conduzidas por um profissional qualificado, a reminiscência permite resgatar essas memórias, convidar a pessoa a falar na primeira pessoa, a recontar a sua história. Não cura a doença, sendo neurodegenerativa, mas proporciona conforto, dignidade e momentos de verdadeira ligação humana.

Quem é Maria do Céu Monteiro?

Maria do Céu é enfermeira há mais de 27 anos e especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiatria. Exerce funções na Unidade de Cuidados Continuados “Saúde a Seu Lado”, pertencente à ULS de Odivelas, e está ligada também à docência, o que lhe permite aliar a teoria à prática clínica.

Antes da especialidade, concluiu uma licenciatura em Sociologia, uma área que, nas suas palavras, lhe deu conhecimentos que agora alimentam os projetos que desenvolve no terreno. Este percurso duplo, entre a enfermagem, as ciências sociais e a saúde mental, é o que lhe permite abordar a reminiscência não apenas como uma técnica, mas como uma forma holística de devolver dignidade a quem cuida e a quem é cuidado.

Como funciona a reminiscência na prática?

Individual vs. grupo

A terapia da reminiscência pode ser aplicada em contexto individual ou em grupo, e ambas as modalidades têm o seu valor.

Na reminiscência individual, o trabalho é altamente personalizado. O profissional recolhe o máximo de informação sobre a história de vida da pessoa, as suas memórias, os seus interesses, a sua personalidade prévia à doença, e utiliza esses dados para conduzir sessões que lhe devolvam a possibilidade de falar sobre si mesma.

Na reminiscência em grupo, seguem-se critérios de inclusão mais estruturados. Maria do Céu descreve o trabalho que tem vindo a desenvolver em articulação com centros de dia, utilizando o programa do Professor João Apóstolo e da Professora Isabel Gil, da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra. Os grupos são fechados, com um mínimo de sete e um máximo de catorze sessões, organizadas em torno de temas específicos, como sabores, profissões ou momentos marcantes da vida.

Os mediadores terapêuticos

Um dos aspetos mais interessantes da reminiscência é o tipo de materiais utilizados. Maria do Céu sublinha que esta é uma terapia de baixo custo, porque trabalha com aquilo que já existe na vida da pessoa: fotografias, objetos pessoais, materiais de um antigo passatempo, cheiros e sabores familiares.

Numa sessão, o profissional pode usar uma fotografia de família para desencadear uma narrativa, um caderno de desenho para estimular a expressão, ou até o aroma de um prato de infância para ativar memórias sensoriais. O objetivo não é avaliar o resultado, a qualidade do desenho ou a precisão da memória, mas sim observar e valorizar o processo: a pessoa conseguiu focar-se, expressou-se, sorriu.

Um caso que vale por mil explicações

Maria do Céu partilha um caso que ilustra, de forma extraordinária, o poder desta técnica.

Quando a equipa chegou ao domicílio, o objetivo clínico era cuidar de uma ferida cirúrgica. A esposa apresentou-o com um aviso: “Não vale a pena, enfermeira. Faça o penso e despachem-se, porque ele começa a dizer disparates.” O senhor estava irritável, revoltado com a sua situação de dependência.

Na segunda visita, a equipa começou a avaliar o estado mental, e lançou aquela que Maria do Céu considera a pergunta “quebra-gelo” da reminiscência: “Fale-me de si.”

Foi como se se tivesse feito luz. O senhor que estava fechado e irritável começou a contar a sua história: tinha sido empreendedor em Angola, era torneiro mecânico, tinha empregados, construiu um barco e batizou-o de Iola, em homenagem à esposa Iolanda. Uma riqueza de vida que estava lá, mas que a doença não deixava ver.

Quando a equipa pediu à esposa uma caneta e um papel, a reação foi de incredulidade: “Enfermeira, as mãos do meu marido estão todas anquilosadas!” Mas quando colocaram a folha e o lápis diante dele, o senhor começou a desenhar. Não era a obra que importava, era o processo. Ele conseguiu focar-se e transmitir algo. Houve um sorriso.

Nas sessões seguintes, utilizaram fotografias como mediador. O senhor olhou para as imagens e começou a falar com um discurso fluente, sobre as suas conquistas, as suas alegrias, a sua história. A família, que se tinha afastado porque “já não era o pai que era”, voltou a aproximar-se. O neto regressou àquela casa. E o senhor, no final da intervenção, olhou a equipa nos olhos e disse uma frase que Maria do Céu guarda até hoje:

“Eu ainda não morri.”

Quem pode aplicar a reminiscência?

Maria do Céu é clara: embora qualquer pessoa possa, em teoria, estimular memórias numa conversa, a terapia da reminiscência como intervenção estruturada deve ser conduzida por um enfermeiro especialista em Saúde Mental e Psiquiatria.

A razão é prática e não corporativa. A reminiscência envolve mobilizar a relação terapêutica como ferramenta, empatia, escuta ativa, assertividade, e ausência de juízos de valor. E há riscos reais: as memórias que emergem nem sempre são agradáveis. Quando surgem memórias dolorosas ou traumáticas, é preciso saber gerir essas emoções sem que a pessoa se feche novamente. Sem essa competência, corre-se o risco de reverter todo o progresso, e devolver a pessoa ao estado de desorganização e mutismo com que se iniciou o acompanhamento.

Isto não significa que a família fique de fora. Pelo contrário: uma das dimensões mais valiosas deste trabalho é capacitar a família para dar continuidade às orientações do profissional: utilizar os materiais certos, manter determinadas rotinas, continuar a conversa. Mas sempre com supervisão.

A família como parceira no cuidado

Uma das mensagens mais fortes deste episódio, é a ideia de que a família não deve ser apenas recetora de um serviço, mas parceira ativa no processo de cuidar.

Maria do Céu relata como, no caso que descreveu, a esposa passou de uma postura derrotista, “não vale a pena, o caso é muito grave”, para uma participante empenhada, que se tornou capaz de utilizar alguns instrumentos terapêuticos, no dia a dia. Não se trata de delegar competências clínicas, mas de dar à família informação precisa e ferramentas simples para que possa gerir melhor a situação e sentir-se mais segura.

O objetivo último é claro: que as famílias não tenham medo de cuidar de alguém com demência em casa. E quando um cuidador diz “não é fácil”, a resposta de Maria do Céu é reveladora: “Não é fácil, mas não é impossível. O que podemos fazer?”

O grande desafio: dar vida aos anos

Um dos momentos mais marcantes da conversa acontece quando Maria do Céu inverte os papéis e lança uma questão ao próprio António: damos anos à vida, mas será que damos vida aos anos?

Com os avanços da ciência e da tecnologia, as pessoas vivem mais. Fala-se na “quarta idade”, a partir dos 80 anos, e há cada vez mais pessoas a chegar aos 90 e aos 100. Mas viver mais tempo não significa, automaticamente, viver com qualidade, com dignidade, com identidade preservada.

A reminiscência é uma resposta concreta a este desafio. Não substitui a medicação, nem trava a progressão da doença, mas oferece algo que nenhum fármaco consegue: devolver à pessoa a sua história, na sua própria voz. E isso transforma não só quem é cuidado, mas toda a família à volta.

Reminiscência: uma terapia acessível que Portugal precisa de conhecer

Maria do Céu admite que a terapia da reminiscência ainda é pouco conhecida em Portugal, até pelos profissionais de saúde. Os centros de saúde, nem sempre têm enfermeiros de saúde mental e a ligação entre as várias unidades de cuidados ainda está no início.

Mas há sinais de mudança. A reestruturação dos serviços de saúde, com a criação das Unidades Locais de Saúde (ULS) e o reforço dos cuidados de proximidade e de comunidade, pode abrir a porta para que intervenções como a reminiscência cheguem a mais pessoas. Os estudos validam a sua eficácia, os resultados no terreno confirmam-na, e o custo é baixo, trabalha-se, em grande medida, com os recursos que já existem na vida da pessoa.

O desafio agora é replicar e escalar.

Principais conclusões deste episódio

  1. A reminiscência é uma terapia não farmacológica que permite aceder às memórias de pessoas com demência, devolvendo-lhes identidade e dignidade. O conceito existe desde 1963, mas só agora começa a ser aplicado de forma estruturada em Portugal.
  2. A pessoa com demência não desapareceu, a doença obscurece, mas não apaga uma vida inteira de memórias. A reminiscência é a chave para as resgatar.
  3. É uma terapia de baixo custo, que utiliza materiais do quotidiano da pessoa: fotografias, objetos pessoais, cheiros e sabores familiares.
  4. Deve ser conduzida por um enfermeiro especialista em Saúde Mental, porque envolve competências terapêuticas específicas, sobretudo quando emergem memórias dolorosas.
  5. A família pode e deve ser parceira no processo, com orientações e supervisão do profissional. O objetivo é que ninguém tenha medo de cuidar de alguém com demência em casa.
  6. Damos anos à vida, mas precisamos de dar vida aos anos, e a reminiscência, é uma das formas mais humanas de o fazer.