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Design para Cuidar Melhor

Liliana Abreu

Quando pensamos em cuidar, pensamos em dar um comprimido, em fazer um penso, em ouvir, em abraçar. Mas e se um simples puxador de porta puder ser um ato de cuidado? Ou a forma como um site está desenhado puder ser uma forma de exclusão?

No terceiro episódio do podcast Cuidar é Canja, António Veríssimo recebe Liliana Abreu, enfermeira de reabilitação e fundadora da Design for All, uma empresa de design de interiores universal e inclusivo, para uma conversa que desafia a nossa perceção de cuidado. Juntos, exploram uma pergunta que raramente se faz: será que a forma como desenhamos as nossas casas está a cuidar de nós, ou a deixar pessoas para trás?

A resposta é surpreendente, e tem implicações práticas para qualquer família que cuide de alguém com mobilidade reduzida, que esteja a envelhecer, ou que simplesmente queira uma casa que se adapte à vida, e não o contrário.

De enfermeira a designer: o percurso de Liliana Abreu

Liliana é enfermeira de formação, com especialização em Reabilitação, a área da enfermagem que trabalha a autonomia do paciente, incluindo a relação entre o corpo, as suas capacidades e o espaço que o rodeia. Cresceu rodeada de inclusão: a mãe é professora de Educação Especial, e Liliana passou a infância em contextos onde a diferença era normalidade.

A viragem profissional aconteceu quando saiu do hospital e começou a trabalhar na comunidade. No hospital, descreveu, tudo o que é preciso para cuidar está ali, é uma bolha controlada. Na comunidade, essa retaguarda desaparece. E foi aí que encontrou uma realidade repetida: famílias que não adaptavam as suas casas por falta de vontade ou de dinheiro, mas por desconhecimento. Não sabiam a quem recorrer, não sabiam que soluções existiam, e iam “remendando” a casa até que ela deixava de fazer sentido para quem lá vivia.

A experiência pessoal cimentou a decisão. Quando fez a sua própria casa, com um marido com problemas nos joelhos e uma gravidez de gémeos que tornou impossível algo tão simples como sair à rua com um carrinho, percebeu que as necessidades de adaptação não são exclusivas de idosos ou de pessoas com deficiência. São de todos, em algum momento da vida.

Assim nasceu a Design for All: uma empresa que prova que adaptar um espaço não significa torná-lo clínico, feio ou impessoal. Significa ouvir a pessoa, perceber as suas rotinas e a sua identidade, e desenhar um espaço que se ajuste à sua vida, e não o contrário.

Design universal, acessibilidade e inclusão: qual é a diferença?

Liliana usa uma analogia simples para explicar três conceitos que muitas pessoas confundem.

Imagine que chega a um edifício e há degraus para entrar. Se alguém coloca uma rampa ao lado dos degraus, isso é acessibilidade, resolveu-se um problema, mas a pessoa que usa a rampa continua a sentir-se diferente.

Agora imagine que, desde o início, o edifício foi desenhado com uma rampa que toda a gente usa, quem anda a pé, quem está em cadeira de rodas, quem empurra um carrinho de bebé. Isso é inclusão. Ninguém precisa de um caminho alternativo. O caminho é o mesmo para todos.

O design inclusivo é a fusão destes dois conceitos: criar espaços que, desde a sua conceção, respondam às necessidades de todas as pessoas, sem adaptações a posteriori, sem soluções que pareçam remendos, sem fazer ninguém sentir-se diferente por precisar de algo diferente.

O problema mais frequente: a casa de banho

Na experiência da Design for All, a adaptação de casas de banho é, de longe, o pedido mais comum. E a razão é quase sempre a mesma.

As casas portuguesas mais antigas foram construídas com banheiras, bidés e portas que abrem para dentro, porque era obrigatório por decreto-lei. Quando alguém nessa casa começa a precisar de uma cadeira sanitária ou de apoio para se deslocar, depara-se com uma cascata de problemas: a cadeira não cabe na porta; se cabe, a porta não fecha porque bate no bidé; a banheira impede a circulação; alguém tentou resolver colocando uma base de chuveiro, mas desnivelou-a e criou um novo obstáculo.

São pequenas coisas que, acumuladas, transformam a casa de banho, um espaço íntimo e essencial, num território hostil. E muitas vezes, quando as famílias procuram a Design for All, já passaram por várias tentativas falhadas de resolução.

Adaptar não tem de ser feio. Nem caro.

Um dos mitos mais enraizados que Liliana combate é a ideia de que adaptar uma casa significa torná-la feia, clínica e cara. A realidade, diz, é frequentemente o contrário: planear e adaptar de forma integrada sai mais barato do que ir remendando.

E as soluções estão mais acessíveis do que a maioria das pessoas imagina. Liliana dá exemplos concretos:

  • Camas articuladas que parecem camas normais: com o mesmo design, a mesma segurança, e a possibilidade de o casal continuar a dormir lado a lado. Porque perder a mobilidade não deveria significar perder a intimidade.
  • Sanitas suspensas reguláveis em altura: sobem e descem consoante quem as utiliza. Ou, mais simplesmente, sanitas instaladas a uma altura diferente do “padrão”, porque o padrão foi definido para uma pessoa genérica que não existe.
  • Barras de apoio minimalistas: que se confundem com os acabamentos do chuveiro.
  • Bancos de duche dobráveis: que praticamente desaparecem quando não estão em uso.

A chave, sublinha Liliana, é pensar antes de agir. Ouvir a pessoa, perceber as suas rotinas e preferências, e só depois desenhar a solução, em vez de impor produtos que resolvem o problema funcional mas destroem a identidade do espaço.

O impacto invisível: a perda de identidade

Quando António pergunta qual é o impacto mais invisível do bom design no cuidado, a resposta de Liliana é imediata e certeira: a perda de identidade.

É algo que acontece gradualmente e com a melhor das intenções. Quando alguém começa a perder competências, quem cuida tende a substituir, a simplificar, a retirar. Tira-se o tapete porque é perigoso. Substitui-se a mobília por equipamento hospitalar. Muda-se a decoração. E, peça a peça, a casa deixa de ser reconhecível para quem lá vive.

Liliana descreve isto com uma honestidade desarmante: “Nós infantilizamos, nós substituímos, nós retiramos coisas que para a pessoa são indispensáveis e que para nós podem não ser.” Um banco pode parecer dispensável para quem cuida, mas para quem é cuidado pode ter uma história associada, um significado, um pedaço de identidade.

O resultado é duplamente cruel: a pessoa já está a lidar com a perda de capacidades, e agora perde também o seu espaço, os seus objetos, a sua identidade visual. O que sobra? “Qual é o meu motivo aqui? O que é que me move?”

O design inclusivo combate exatamente isto. Não se trata apenas de pôr barras na parede. Trata-se de garantir que, enquanto a vida muda, a casa acompanha a pessoa, sem lhe roubar quem ela é.

Como funciona o serviço da Design for All

O processo começa sempre com uma visita ao domicílio. A equipa precisa de perceber o espaço, mas sobretudo de perceber a pessoa: o que gosta, o que faz, como é o seu dia a dia, quem mais vive na casa. Porque adaptar uma casa para uma pessoa sem considerar os restantes habitantes não é design inclusivo, é apenas mais uma adaptação que exclui.

A partir daí, há dois caminhos possíveis: uma consultoria, em que a Design for All sugere soluções, materiais e equipamentos de apoio; ou um projeto completo, entregue pronto para execução, com medidas, materiais escolhidos e tudo definido.

Liliana sublinha um ponto estratégico: sempre que possível, a equipa aconselha a família a ir além da necessidade imediata. Se a ciência indica a progressão provável de uma condição, faz sentido adaptar a casa de uma vez para o que vai ser necessário, em vez de voltar a intervir daqui a meses. Assim, a pessoa sente que a casa se vai ajustando com ela, e não contra ela.

A Design for All opera a partir do Porto, mas presta serviços em todo o país, presencialmente ou por videochamada.

Inclusão: uma “não questão” que Portugal ainda precisa de resolver

Liliana partilha dois números que ajudam a enquadrar a dimensão do tema: duas em cada três pessoas em Portugal usam óculos, e 10% da população tem uma incapacidade declarada, e a grande maioria não tem mais de 65 anos.

A reflexão que faz é provocadora: ninguém é discriminado no trabalho por usar óculos. Então por que razão é que alguém que não anda deveria ser? Por que razão é que os espaços continuam a ser desenhados como se toda a gente tivesse as mesmas capacidades, a mesma altura, a mesma mobilidade?

A inclusão e a acessibilidade, reconhece, ainda são temas de que se fala pouco em Portugal, e quando se fala, é quase sempre por motivos negativos, associados a polémicas ou a casos extremos. Há muita iliteracia sobre o que significam estes conceitos, muitos preconceitos (“não quero pensar nisso, senão atraio”) e muita desinformação sobre as soluções que existem.

A sua visão para o futuro é pragmática: mais do que chegar a clientes individuais, o objetivo é chegar a profissionais, enfermeiros, terapeutas, assistentes sociais, que por sua vez chegam a dezenas de famílias. Se cada profissional for sensibilizado para a importância do espaço no cuidado, o impacto multiplica-se.

Principais conclusões deste episódio

  1. O design é um ato de cuidado. A forma como uma casa está organizada pode promover autonomia ou reforçar dependência. Um puxador de porta, uma altura de sanita, uma largura de corredor, tudo conta.
  2. Adaptar uma casa não tem de ser feio nem caro. Existem soluções de design que são funcionais, esteticamente integradas e, muitas vezes, mais baratas do que adaptações improvisadas.
  3. A perda de identidade é o impacto mais invisível do cuidado mal pensado. Quando substituímos tudo em nome da segurança, podemos estar a retirar à pessoa aquilo que a faz sentir-se em casa.
  4. Inclusão não é o mesmo que acessibilidade. Acessibilidade resolve um problema à posteriori; inclusão desenha o espaço desde o início para que o problema não exista.
  5. Todos precisamos de adaptações em algum momento da vida: uma gravidez, uma cirurgia, uma lesão temporária, o envelhecimento natural. O design inclusivo não é para “os outros”; é para todos.
  6. A casa de banho é o ponto crítico na maioria das casas portuguesas. As construções antigas, com banheiras e bidés obrigatórios, são o principal obstáculo à mobilidade domiciliária.

Sobre o podcast Cuidar é Canja

O Cuidar é Canja é o podcast da Academia de Cuidadores, o projeto educativo da Mais Que Cuidar. Apresentado por António Veríssimo, traz a este microfone enfermeiros, médicos, psicólogos, geriatras, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e outros profissionais de saúde para conversas que descomplicam o cuidar.

Seja cuidador informal ou profissional, este podcast é o seu espaço para aprender, crescer e sentir que não está sozinho nesta jornada.