Em Portugal, cerca de 22 mil pessoas vivem com pelo menos um estoma e 90% dessas situações correspondem a ostomias de eliminação, ou seja, intervenções que derivam a saída das fezes ou da urina para um orifício criado na parede abdominal ou lombar. Apesar deste número, o tema continua a ser pouco falado em casa e na sociedade, o que deixa muitos doentes e cuidadores a aprender por tentativa e erro.
Neste episódio do Cuidar é Canja, António Veríssimo conversa com Ana Cristina Gomes, enfermeira, Mestre em Enfermagem Médico-Cirúrgica na vertente de Oncologia, com pós-graduação em tratamento de feridas e viabilidade tecidular, da qual é atualmente coordenadora. Com anos de experiência em consultas de estomoterapia, Ana Cristina acompanha pessoas com ostomia e as suas famílias desde o pós-operatório imediato até à adaptação ao dia a dia.
Durante a conversa, a enfermeira explica o que é uma ostomia de eliminação e quais os quatro tipos existentes (colostomia, ileostomia, urostomia e nefrostomia), como funciona a comparticipação a 100% dos dispositivos em Portugal, que sinais devem levar o doente à urgência e como gerir questões práticas como odores, alimentação, sexualidade e a relação entre a pessoa ostomizada e o seu cuidador.
Se cuida de alguém com ostomia de eliminação, se trabalha em enfermagem, apoio domiciliário ou cuidados paliativos, ou se acompanha um familiar em processo de cirurgia colorretal ou urológica, este episódio reúne respostas concretas às perguntas que as consultas de estomoterapia ouvem todos os dias.
O que é uma ostomia de eliminação
Uma ostomia de eliminação é uma intervenção cirúrgica que cria uma abertura na parede abdominal (ou, no caso da nefrostomia, na região lombar) para permitir a saída de fezes ou de urina quando o trajeto natural deixa de poder cumprir essa função. A parte do intestino ou do aparelho urinário que é exteriorizada e suturada à pele passa a chamar-se estoma.
Como explica Ana Cristina Gomes, o estoma não tem terminações nervosas. Isto significa que não dói ao ser tocado ou limpo, um dos primeiros receios de quem chega a casa pela primeira vez com uma ostomia. O cuidado à pele à volta (pele periestomal) deve, ainda assim, ser feito com suavidade, porque apesar de não haver dor pode haver lesão ou maceração se a limpeza for brusca.
A ostomia pode ser temporária, por exemplo, quando se cria uma ileostomia de proteção para que uma parte do intestino possa cicatrizar após cirurgia ou tratamento oncológico, ou definitiva, quando não é possível a situação. A abordagem clínica, o acompanhamento psicológico e o tempo de adaptação variam consoante este fator.
Os quatro tipos de ostomia de eliminação
As ostomias de eliminação dividem-se em quatro tipologias principais:
- Colostomia: abertura feita no intestino grosso (cólon ou sigmoide). É a ostomia mais frequentemente associada a cirurgia por cancro colorretal.
- Ileostomia: abertura feita no intestino delgado (íleo). As fezes tendem a ser mais líquidas e há maior risco de desidratação e de lesões na pele periestomal.
- Urostomia: derivação urinária para conduzir a urina até ao exterior, quando a bexiga já não consegue cumprir essa função.
- Nefrostomia – drenagem de urina feita diretamente a partir do rim, habitualmente através de um orifício na região lombar.
Porquê se faz uma ostomia: causas e contexto
A causa mais frequente das ostomias de eliminação, em Portugal, é o cancro colorretal. Os dados partilhados por Ana Cristina Gomes dão a dimensão do problema:
- 7 mil a 10 mil novos casos de cancro colorretal diagnosticados por ano em Portugal
- Cerca de 11 mortes por dia associadas a este tipo de cancro
- Estima-se que 1 em cada 20 pessoas venha a enfrentar um cancro colorretal ao longo da vida
Os fatores de risco incluem alterações alimentares (nomeadamente o consumo elevado de alimentos processados), o consumo de tabaco e a história familiar. Para além do cancro, outras causas frequentes são os traumatismos e acidentes, as doenças inflamatórias intestinais como a doença de Crohn e a colite ulcerosa, e, mais raramente, malformações congénitas.
Da alta hospitalar para casa: porque a adaptação continua em casa
O tempo de internamento após uma cirurgia com construção de ostomia é hoje mais curto do que era há alguns anos. As equipas de enfermagem fazem o ensino ao doente e ao cuidador durante o internamento, mas, como explica Ana Cristina, uma pessoa que esteja internada uma semana não faz a troca do dispositivo todos os dias, o que significa que a maior parte da destreza prática é adquirida já em casa.
Por este motivo, os doentes são normalmente referenciados à consulta de estomoterapia à data da alta, com uma primeira consulta na semana seguinte. É nessa consulta que se avalia como correu a primeira semana em casa, se houve complicações, se o dispositivo escolhido é o mais adequado e se o doente e o cuidador já se sentem autónomos na troca do saco e da placa.
O papel do cuidador: apoiar sem substituir
Uma das dinâmicas mais comuns nos primeiros meses é a superproteção: o cuidador, por medo de que a pessoa ostomizada se magoe ou não consiga, acaba por fazer todos os cuidados. O efeito é contraintuitivo, em vez de proteger, esta substituição aumenta a insegurança da pessoa, que deixa de desenvolver competências próprias.
A recomendação das consultas de estomoterapia é clara: o cuidador deve apoiar, estar presente, mas dar espaço. Nos primeiros dias pode fazer sentido que o cuidador ajude na troca da placa (que se mantém em média 3 a 4 dias) enquanto o doente começa por assumir a troca diária do saco. À medida que a confiança cresce, a pessoa ostomizada vai assumindo passos adicionais até chegar à autonomia plena.
As consultas são, por norma, feitas em conjunto com o cuidador, mas há momentos em que pode ser útil um espaço só para o familiar, para esclarecer dúvidas ou gerir a carga emocional.
Cuidados diários com o estoma e com a pele periestomal
O estoma, por ser tecido intestinal ou urinário exteriorizado, é naturalmente húmido e de cor rosa-avermelhada. Na rotina diária, doente e cuidador devem saber:
- Reconhecer as características normais do estoma (cor, forma, volume) para detetarem alterações
- Limpar a pele em redor do estoma com água e compressa, de forma suave
- Avaliar se a placa está a vedar corretamente para evitar fugas
- Trocar o saco diariamente (sacos drenáveis podem ter uma frequência diferente)
- Manter a placa 3 a 4 dias, desde que esteja íntegra
Nas ileostomias, como as fezes tendem a ser mais líquidas, há maior risco de maceração da pele e de desidratação por perda de eletrólitos. Nestes casos, a consulta de nutrição e os preparados recomendados pelas equipas de estomoterapia são fundamentais.
Sacos, placas e acessórios: dispositivos e comparticipação a 100%
O mercado oferece uma gama vasta de dispositivos e acessórios, e a escolha é sempre personalizada em consulta. Os tipos mais frequentes incluem:
- Dispositivos de uma peça (placa e saco numa só estrutura)
- Dispositivos de duas peças (placa e saco separados)
- Sacos drenáveis ou sacos fechados
- Cintos, pastas e anéis niveladores, para melhorar a adaptação da placa ao corpo
- Spray desodorizante aplicado dentro do saco
Uma notícia que ainda é desconhecida por muitas famílias: desde 2017, os dispositivos para ostomia são comparticipados a 100% em Portugal. A prescrição é feita pelas equipas de enfermagem de estomoterapia ou pelas equipas médicas (hospitalares e dos cuidados de saúde primários) e o material é levantado na farmácia mediante receita médica. Quando a farmácia não tem stock imediato, os fornecedores entregam no prazo máximo de 48 horas.
O material inicial é normalmente fornecido pelo hospital nos primeiros dias após a alta, precisamente para permitir ao doente experimentar e perceber o que melhor se adapta à sua situação antes da primeira consulta de estomoterapia.
Odores, gases e alimentação: estratégias concretas
A gestão dos odores é uma das maiores preocupações sociais de quem vive com uma ostomia. A boa notícia é que hoje existem várias estratégias eficazes:
- Sacos com filtros de carvão ativado, concebidos para evitar a libertação de odores
- Spray desodorizante aplicado dentro do saco, que neutraliza o odor e tem um aroma agradável
- Ajustes alimentares: a salsa adicionada às refeições ajuda a reduzir o odor; alimentos como alho e cebola tendem a aumentá-lo e podem ser reduzidos ou evitados
- Identificar hábitos alimentares prévios: se a pessoa já tinha flatulência ou odores mais intensos antes da cirurgia, é provável que se mantenha a relação com os mesmos alimentos
A alimentação adequada é acompanhada tanto por equipas de enfermagem como por equipas de nutrição, que em muitos hospitais já estão integradas em programas estruturados (como os protocolos ERAS), com consultas pré e pós-operatórias.
Irrigação intestinal: devolver previsibilidade ao dia a dia
A irrigação é uma técnica que pode ser feita em casa por pessoas com colostomia, desde que haja autorização médica e treino prévio com a equipa de estomoterapia. Consiste em introduzir água morna no cólon através do estoma, de forma controlada, estimulando a evacuação num momento previsível.
O benefício principal é devolver previsibilidade. Com a irrigação, a pessoa sabe aproximadamente quando vai ter eliminação e pode, nas horas seguintes, usar um dispositivo mais pequeno e discreto, o que permite planear com confiança ir à praia, a um casamento, ou viver a sexualidade sem o receio constante de uma fuga inesperada.
A irrigação não é indicada para todas as situações clínicas. Por isso, a decisão é sempre partilhada com a equipa médica e, uma vez aprovada, é ensinada e demonstrada em contexto de consulta até que a pessoa se sinta confiante para a fazer sozinha.
Sinais de alerta: quando ir à urgência
Doente e cuidador devem saber reconhecer os sinais que justificam uma ida imediata ao serviço de urgência:
- Ausência de eliminação: não há fezes no saco (nas colostomias e ileostomias) ou não há urina a drenar (nas urostomias e nefrostomias). É um possível sinal de obstrução
- Hemorragia no estoma ou na pele à volta do estoma.
- Urina com sangue vivo, especialmente se associada a sinais de infeção urinária
- Dor abdominal intensa associada a ausência de drenagem
Para situações menos urgentes, como uma fuga recorrente, uma lesão leve na pele periestomal, dificuldade em fazer a troca do dispositivo, a referência é a consulta de estomoterapia, que dispõe de contacto telefónico direto para esclarecimento de dúvidas. Em caso de dúvida fora do horário da consulta, a Linha SNS 24 (808 24 24 24) pode ajudar a orientar a decisão.
Onde procurar apoio
Em Portugal, o apoio a pessoas com ostomia articula-se em várias frentes:
- Consultas de estomoterapia no SNS, maioritariamente em contexto hospitalar e, progressivamente, também nos cuidados de saúde primários
- Consultas em contexto privado, disponíveis em várias regiões
- Ligas e associações de apoio à pessoa portadora de ostomia
- Linhas de apoio das empresas fornecedoras de dispositivos, com enfermeiros especializados em estomoterapia do outro lado da linha
- Eventos e encontros organizados anualmente em torno do Dia da Pessoa com Ostomia, celebrado em outubro
A consulta de estomoterapia é feita por enfermeiros com formação específica e é o ponto de contacto preferencial para questões clínicas, ajustes de dispositivos e acompanhamento continuado.
Principais conclusões deste episódio
- Em Portugal vivem cerca de 22 mil pessoas com pelo menos um estoma, sendo que 90% são ostomias de eliminação (colostomia, ileostomia, urostomia ou nefrostomia).
- O estoma não tem terminações nervosas, por isso não dói ao ser manipulado, mas a pele em redor do estoma, deve ser cuidada com suavidade para evitar maceração.
- Desde 2017, os dispositivos para ostomia são comparticipados a 100% em Portugal, mediante prescrição médica ou de enfermagem.
- O cuidador deve apoiar sem substituir: a superproteção atrasa a adaptação da pessoa ostomizada e aumenta a sua insegurança.
- Os odores podem ser geridos com sacos com filtros de carvão ativado, spray desodorizante dentro do saco e ajustes alimentares. A salsa reduz o odor, e o alho e a cebola, tendem a aumentá-lo.
- A irrigação intestinal é uma técnica disponível para pessoas com colostomia (com autorização médica e treino prévio), que devolve previsibilidade ao dia a dia e melhora a qualidade de vida social e íntima.
- Ausência de eliminação, hemorragia no estoma e urina com sangue vivo são sinais para recorrer ao serviço de urgência.
- As consultas de estomoterapia são o ponto de contacto preferencial para dúvidas e ajustes e existem tanto no SNS como no privado, com crescente presença nos cuidados de saúde primários.







