Avançar para o conteúdo
Episodio 10 sobre hospitalização domiciliária com o Enfermeiro Casimiro Correia

Hospitalização Domiciliária: Internado mas em Casa 

Casimiro Correia

Há centenas de pessoas em Portugal que estão internadas… em casa. Não tiveram alta. Continuam a fazer tratamento hospitalar, mas longe das enfermarias. Têm acompanhamento médico e de enfermagem todos os dias no domicílio, com a mesma intensidade clínica de um internamento hospitalar e apoio disponível 24 horas por dia. Chama-se Hospitalização Domiciliária, existe em mais de 50 unidades locais de saúde do Serviço Nacional de Saúde, e está a transformar a forma como Portugal cuida dos seus doentes.

Apesar de já estar implementada em quase todo o país, a maior parte das famílias portuguesas nunca ouviu falar deste serviço. Quando alguém precisa de cuidados de saúde, o primeiro reflexo continua a ser ir ao serviço de urgência. Ninguém pondera, em primeiro lugar, que o tratamento pode acontecer dentro da própria casa, com o mesmo nível de cuidados, sem o desgaste do internamento convencional e com melhores resultados clínicos comprovados.

Neste episódio do Cuidar é Canja, António Veríssimo conversa com Casimiro Correia, enfermeiro na Unidade de Hospitalização Domiciliária do Hospital São Francisco Xavier (ULS Lisboa Ocidental). Depois de quase 25 anos em Cuidados Intensivos, Casimiro trocou o ambiente controlado dos monitores pela imprevisibilidade das casas portuguesas, e há cerca de seis anos integra a equipa que leva o hospital a casa dos doentes. É de dentro deste serviço que explica, sem rodeios, o que muda quando é o doente e a família a decidir as regras do espaço de tratamento.

Se é cuidador familiar, profissional de saúde, ou simplesmente alguém que quer perceber o futuro dos cuidados em Portugal, este episódio reúne informação prática, rigorosa e útil sobre quem pode aceder à Hospitalização Domiciliária, como funciona o serviço, e o que se exige (e o que se entrega) a quem o recebe em casa.

O que é a Hospitalização Domiciliária

A Hospitalização Domiciliária é uma modalidade de internamento hospitalar em que o doente recebe cuidados clínicos no seu domicílio, com a mesma intensidade e a mesma equipa multidisciplinar que teria numa enfermaria. Não é um cuidado simplificado, nem uma versão “ligeira” do hospital. É a continuação do internamento, só que noutro espaço físico.

Como sintetiza Casimiro Correia, “é o hospital que entra dentro de casa com uma mochila grande às costas e vai fazer tudo aquilo que as pessoas precisam no seu próprio ambiente”. A pessoa está, do ponto de vista administrativo e clínico, internada. O número de cama existe. O processo médico está aberto. A medicação é prescrita e administrada por profissionais. A única diferença é que a cama está na sala, no quarto ou na divisão da casa em que o doente se sente mais confortável.

Este modelo chegou a 50 unidades locais de saúde nos últimos dez anos. Em Portugal, foi pioneiramente implementado em alguns hospitais centrais e tem vindo a expandir-se para praticamente todo o território, à medida que a tutela percebeu que se trata de um serviço com melhor relação custo-benefício, melhores resultados clínicos e maior satisfação de doentes e famílias do que o internamento convencional.

Como funciona o internamento em casa

Quando um doente é admitido em Hospitalização Domiciliária, todo o circuito hospitalar entra em funcionamento. A medicação é prescrita pelo médico responsável, preparada pela farmácia hospitalar em câmara de fluxo laminar (no caso da terapêutica endovenosa), transportada em frio para casa do doente, e administrada por uma equipa que combina presença física e prontidão remota.

A primeira visita é sempre feita em conjunto pelo médico e pelo enfermeiro. É nesse momento que se explica o funcionamento do serviço, se obtém o consentimento informado e escrito do doente e da família, e se desencadeia o processo clínico. Daí em diante, a equipa de enfermagem visita o doente todos os dias para administrar tratamentos, monitorizar parâmetros e ajustar o plano clínico.

A equipa leva consigo equipamento que assegura cuidados de primeira linha em qualquer cenário: aparelhos de avaliação de sinais vitais, aspirador, desfibrilhador, gasometria portátil (que permite fazer análises arteriais em casa), bomba infusora programável para administração de antibióticos endovenosos, e a medicação de urgência necessária para responder a uma intercorrência grave. Tudo o que existe no carro de urgência de uma enfermaria está disponível no carro da equipa.

Quando o tratamento exige meios complementares de diagnóstico (radiografia, ecografia, TAC ou outros), o pedido é feito diretamente ao serviço hospitalar e marcado com prioridade. Como explica Casimiro, “se nós deixarmos de avaliar a situação, deixamos de poder controlar as coisas em casa”. Por isso, uma radiografia é feita no próprio dia, uma ecografia idem. O doente sente, na prática, uma resposta mais rápida do que teria numa enfermaria convencional, onde competiria por marcação com dezenas de outros utentes.

Quem pode beneficiar: critérios de admissão

Apesar de ser um serviço amplo, a Hospitalização Domiciliária não é para todos os doentes nem para todas as situações. A admissão exige critérios clínicos, sociais e habitacionais rigorosos, e o doente é avaliado por quatro profissionais diferentes antes de regressar a casa: o enfermeiro, o médico, o assistente social e o farmacêutico.

A avaliação clínica determina se há estabilidade hemodinâmica e se a patologia em causa pode ser tratada com segurança em casa. As principais situações tratadas em Hospitalização Domiciliária incluem:

  • Infeções respiratórias (pneumonias, infeções brônquicas)
  • Infeções urinárias complicadas e não complicadas
  • Descompensações cardíacas
  • Patologia vascular, incluindo infeções de membros inferiores e feridas crónicas
  • Apoio oncológico, com administração de tratamentos endovenosos em casa
  • Reabilitação no domicílio, através de enfermagem de reabilitação

Para que um doente com infeção possa ser admitido, é exigido que o agente patogénico esteja isolado e que exista terapêutica antibiótica adequada disponível para administração domiciliar. A farmácia hospitalar valida esta possibilidade caso a caso.

A avaliação social verifica se a habitação reúne condições mínimas e, sobretudo, se existe cuidador disponível quando o doente tem algum grau de dependência. Para doentes autónomos, a presença permanente de um cuidador não é obrigatória. Para doentes com dependência, é condição absoluta.

A admissão pode partir de várias portas de entrada: o doente já internado num dos três hospitais da ULS Lisboa Ocidental (São Francisco Xavier, Santa Cruz, Egas Moniz); o doente que recorre ao serviço de urgência; a referenciação a partir dos cuidados de saúde primários; ou, cada vez mais, o pedido feito por lares com médico e enfermeiro próprios, com quem a equipa tem articulação direta.

O dia-a-dia da equipa: presença até às 23h, prevenção até de manhã

A equipa de Hospitalização Domiciliária do Hospital São Francisco Xavier é composta por quatro médicos, sete enfermeiros, uma nutricionista, uma farmacêutica dedicada, e apoio em enfermagem de reabilitação. O dia começa às 8h com um briefing entre médico e enfermeiros, onde se define o plano de visitas, se discute o estado dos doentes acompanhados, e se preparam os medicamentos e o material.

A presença física no domicílio é assegurada entre as 8h e as 23h. Um primeiro enfermeiro entra às 8h e sai às 20h. Um segundo entra às 11h e sai às 23h. Os turnos de doze horas permitem distribuir visitas ao longo do dia, com cada enfermeiro a visitar entre sete a oito doentes. Cada visita dura cerca de 30 minutos, tempo “totalmente dedicado e personalizado”, como sublinha Casimiro, em comparação com o tempo fragmentado de quem está numa enfermaria a responder a múltiplas campainhas.

A partir das 23h, e até às 8h da manhã do dia seguinte, o apoio mantém-se em regime de prevenção. Há sempre um enfermeiro do outro lado do telefone, a qualquer hora da noite. Se for necessário, esse enfermeiro sai de casa, vai ao hospital buscar o equipamento, e desloca-se a casa do doente para resolver uma intercorrência. Casimiro descreve esta lógica com uma frase que resume todo o modelo: “O telemóvel é a campainha do hospital”.

A área geográfica coberta pela unidade abrange desde Carcavelos até Cascais, passando por Oeiras e toda a zona ocidental da Grande Lisboa. É um território amplo, e o tempo de resposta em hora de ponta é um dos constrangimentos reconhecidos. Mas em qualquer outro momento do dia, a equipa consegue chegar à casa do doente em poucos minutos.

O papel insubstituível do cuidador

Se há um conceito que atravessa toda a conversa, é este: sem cuidador, não existe Hospitalização Domiciliária. Quando o doente tem algum grau de dependência, a equipa precisa de alguém em casa que assegure a alimentação, a higiene e a toma da medicação oral nas horas certas. A visita clínica diária ocupa cerca de 30 minutos. As restantes 23 horas e meia ficam a cargo do cuidador familiar, e é por isso que a equipa o trata como peça central, e não como recurso de apoio.

A primeira tarefa da equipa de enfermagem, em qualquer admissão, é formar e informar o cuidador. Para alguém que nunca lidou com uma sonda vesical, uma sonda nasogástrica, uma bomba infusora ou uma ferida complexa, tudo isto é território desconhecido. O processo começa muitas vezes ainda dentro do hospital, antes da alta, e continua em casa com explicações detalhadas, demonstrações práticas e treino até o cuidador se sentir seguro a manusear o equipamento e a reconhecer sinais de alerta.

Como sintetiza Casimiro, “o saber não ocupa espaço”. O cuidador familiar acaba este percurso com competências sobre administração de medicação, alimentação, higiene, prevenção de complicações, gestão de equipamentos e literacia clínica que a maioria das pessoas nunca tem oportunidade de adquirir. Em Portugal, onde a literacia em saúde da população é uma das mais baixas da Europa, este efeito secundário do serviço é, em si, um ganho de saúde pública.

Esgotamento do cuidador: como a equipa reconhece e o que faz

Cuidar de alguém a tempo inteiro é um trabalho de 24 horas por dia, sete dias por semana. Mesmo quando há equipa clínica a passar todos os dias, o peso emocional, físico e logístico do cuidador familiar acumula-se. A equipa de Hospitalização Domiciliária aprende a reconhecer os sinais precoces do esgotamento: um comprimido esquecido, uma pergunta diferente, uma expressão mais cansada, uma chamada feita por causa de algo que antes não preocupava.

Casimiro fala com clareza sobre este momento. E sobre o que acontece quando o cuidador chega ao limite. A resposta é direta: o doente regressa ao hospital, sem qualquer julgamento. “O cuidador tem que perceber que no momento em que se sentir menos capaz, nós podemos e devemos tirar a pessoa de casa”, explica. “Está tudo oleado para entrar diretamente pelo serviço de urgência ou ir direcionado ao serviço que já tem uma cama à espera dele, para essa pessoa e para o próprio cuidador descansar.”

Esta abordagem desfaz uma das principais barreiras psicológicas que impedem cuidadores de pedir ajuda: a vergonha. Muitos cuidadores familiares interpretam o cansaço como uma falha pessoal. A equipa, desde a primeira visita, explica que o regresso ao hospital não é um fracasso. É uma opção prevista, garantida e respeitada.

Vantagens clínicas, humanas e económicas

A Hospitalização Domiciliária tem ganhos mensuráveis em três dimensões.

Clinicamente, reduz significativamente as infeções associadas aos cuidados de saúde. Em casa, não há infeção cruzada entre doentes. O ambiente é o próprio ambiente imunológico do doente, com a sua flora habitual. Os estudos disponíveis mostram menos complicações e, em muitos casos, recuperações mais rápidas do que em internamento convencional.

Humanamente, os níveis de satisfação dos doentes e familiares são extraordinários. Os estudos de referência apontam para valores acima dos 90%. Na unidade do Hospital São Francisco Xavier, a satisfação medida pelo questionário aplicado no final de cada internamento é da ordem dos 95 a 96%. O doente recupera em ambiente familiar, com as suas rotinas, e a família participa ativamente no processo, sem a logística de deslocações e horários de visita.

Economicamente, um internamento em Hospitalização Domiciliária custa ao Serviço Nacional de Saúde cerca de metade do valor de uma cama de enfermaria convencional. A diferença vem sobretudo da hotelaria (cama, alimentação, lavandaria), que passa a ser assegurada pelo doente em casa. Esta poupança permite reinvestir em mais doentes, mais equipas e mais cobertura do serviço.

O futuro da Hospitalização Domiciliária no SNS

Casimiro identifica três grandes direções para o futuro do serviço.

A primeira é a expansão para a pediatria. Atualmente, a Hospitalização Domiciliária em Portugal está focada em adultos e idosos. A possibilidade de tratar crianças em casa, com acompanhamento clínico equivalente ao do hospital, abriria respostas para situações em que o internamento prolongado tem impacto significativo no desenvolvimento e no bem-estar da criança.

A segunda é o aprofundamento do apoio oncológico. A unidade do Hospital São Francisco Xavier já desloca tratamentos endovenosos para casa de doentes oncológicos, evitando-lhes deslocações e tempos de espera no hospital. A expansão deste modelo a mais hospitais e a mais tipos de tratamento é uma evolução natural.

A terceira, e mais transversal, é o aumento da literacia em saúde da população portuguesa. Como Casimiro recorda na conversa, Portugal tem um dos piores indicadores europeus nesta área. A Hospitalização Domiciliária, pelo próprio modo como opera (com a família a aprender em casa todos os dias), é um veículo natural de promoção de literacia em saúde. Quanto mais doentes e famílias passam por este serviço, mais consciência ganha a sociedade sobre prevenção, gestão de doenças crónicas e cuidados básicos.

O Jogo das Cartas: do hospital à casa, a continuidade

No momento ritual do Cuidar é Canja, o Jogo das Cartas, Casimiro escolheu a carta da galinha: “Saíste dos Cuidados Intensivos, um sítio onde se luta contra a morte todos os dias, e foste para a casa das pessoas. Essa mudança foi uma fuga ou uma chegada?”

A resposta não foi nem fuga nem chegada. Foi continuidade. Como explica Casimiro, “a única coisa que mudou foi o cenário de prestação de cuidados”. A forma de exercer enfermagem, a relação com a família, a entrega à pessoa em frente, mantiveram-se. “O enfermeiro é, provavelmente, o único profissional que consegue trabalhar com o equipamento de ponta com mãos completamente nuas, sem nada. E que consegue ocupar o arco temporal desde antes da pessoa nascer, até o momento pós-morte. O enfermeiro continua lá depois da pessoa morrer.”

Questionado sobre se cuidar é canja, Casimiro também não hesitou: “Cuidar é canja porque nós temos que nos oferecer, temos que dar o melhor que temos.” E acrescenta uma imagem que resume a sua filosofia profissional. Quando uma pessoa entra num espaço de prestação de cuidados, a primeira coisa que faz é “procurar um par de olhos”. O profissional tem duas opções: “Ou olha e mostra um sorriso e procura essa pessoa, ou desvia o olhar e vai parecer que está ocupado.” Ser enfermeiro, conclui, é “essencialmente ter a capacidade de calçar os sapatos das outras pessoas”.

Esta visão coloca o foco do serviço onde ele deve estar: na pessoa cuidada, no respeito pela sua dignidade e na humanização da prestação clínica. A próxima grande evolução dos cuidados de saúde, defende Casimiro, “não é descobrir mais uma máquina ou fazer mais um exame. É aumentar a humanização e o grau de entrega à pessoa”.

Principais conclusões deste episódio

  1. A Hospitalização Domiciliária é uma modalidade de internamento hospitalar em que o doente recebe os mesmos cuidados clínicos de uma enfermaria, mas no seu próprio domicílio, com presença física da equipa entre as 8h e as 23h e apoio em prevenção 24 horas por dia.
  2. O serviço existe em mais de 50 unidades locais de saúde do Serviço Nacional de Saúde, mas continua pouco conhecido pela população, que tende a recorrer em primeiro lugar ao serviço de urgência sempre que precisa de cuidados.
  3. A admissão exige avaliação por quatro profissionais (enfermeiro, médico, assistente social e farmacêutico) e cumprimento de critérios clínicos, sociais e habitacionais, incluindo a existência de cuidador disponível quando o doente tem algum grau de dependência.
  4. As principais patologias tratadas em Hospitalização Domiciliária incluem infeções respiratórias, infeções urinárias, descompensações cardíacas, patologia vascular, apoio oncológico e reabilitação no domicílio.
  5. A equipa visita o doente cerca de 30 minutos por dia. As restantes 23 horas e meia são asseguradas pelo cuidador familiar, que se torna peça central da equipa e recebe formação clínica equivalente ao que seria dado num internamento convencional.
  6. O esgotamento do cuidador é reconhecido pela equipa nas pequenas mudanças do dia-a-dia e existe um circuito direto para o regresso do doente ao hospital sempre que o cuidador chega ao limite, sem culpa nem julgamento.
  7. Um internamento em Hospitalização Domiciliária custa ao SNS cerca de metade de um internamento convencional, reduz significativamente as infeções associadas aos cuidados de saúde, e tem níveis de satisfação dos doentes e famílias acima dos 95%.
  8. O futuro do serviço passa pela expansão à pediatria e ao apoio oncológico, e pelo aumento da literacia em saúde da população portuguesa, ainda hoje uma das mais baixas da Europa.